quarta-feira, 4 de novembro de 2009

T no ônibus, curta 03.

T, como toda pessoa normal, odiava andar de ônibus. Toda aquela gente se esfregando umas nas outras, aqueles ‘dá licença’ e ‘desculpa’, murmurados sem entonação e sinceridade, o trocador com cara de sono, o motorista que mesmo reparando que o ônibus está lotado continua parando nas plaquinhas azuis e deixando mais gente ainda entrar (quer dizer, por quê? Ela sabia que ele não ganhava bônus pra cada pessoa a mais que se espremia dentro do carro que ele guiava), ela simplesmente detestava. Ela sabia também que se fosse andando, além de economizar dois reais, chegaria no cursinho mais rápido, e definitivamente menos perturbada, já que as endorfinas liberadas na caminhada dariam conta do recado. E então o ônibus parou na esquina da avenida principal com a rua dos bancos, e ela entrou. E ela se lembrou do porque andar de ônibus todas as manhãs.

Nesse caso, ‘ela’ , era C, uma garota que fazia cursinho junto com T. C, era uma garota completamente normal: seus cabelos castanhos na altura do ombros eram normais, seu rosto redondo era normal, seu sorriso largo era normal. E mesmo assim, T, ficava tão tímida e nervosa perto dela, que no cursinho se sentava o mais longe que a sala lhe permitia, e se esforçava para evitar olhar na direção dela durante os intervalos. Mas no ônibus...assim que percebia que T estava ali, C ia se espremendo na direção dela, e iam sacolejando lado a lado pelo resto do caminho até o cursinho, conversando sobre os professores ou sobre alguma questão complicada de alguma prova passada. Era só ali que T se permitia olhar na direção da colega sem restrições, e mesmo que não conversassem sobre nada realmente importante, ela ansiava por aqueles instantes, a parte boa do seu dia.

Assim que C passou pela roleta, foi se espremendo o seu caminho até T, e enquanto seus ombros colidiam levemente um no outro, sorriu brevemente, abaixando a cabeça logo em seguida. T reparou. Geralmente C sorria o tempo todo, como se pra ela ficar em pé num ônibus lotado às sete da manhã fosse o melhor jeito de começar o dia. Resolveu ser ousada e se intrometer.
‘Ei, C, o que houve?’

‘Nada não.’ Seu tom de voz não convenceria T nem em um milhão de anos. Ela insistiu.

‘O que aconteceu? Tem certeza de que não quer conversar?’ T, por outro lado, fazia tão perfeitamente o tom da colega-fingindo-preocupação-porque-era-educada, que se não fosse o seu coração gritando ‘POR FAVOR, FALA COMIGO, ME DIZ O QUE ACONTECEU, ME DIIIIZ!’, até ela mesma acreditaria.

‘É que..ah, você não tem que ouvir isso, deixa pra lá’ C sorria fraco outra vez. Ainda não convencia.

‘Que isso, eu sei que não somos amigas muito próximas..’ porque eu sou afim de você’, a voz no coração de T dizia, ‘Mas talvez se você falar, você fique aliviada’ enquanto eu não, porque você é hetero e nem sonha que eu não sou ‘, a voz continuava, ‘e eu quero mesmo saber o que aconteceu pra você parar de sorrir.

‘É que.. eu.. to gostando de alguém. Que não gosta de mim.’ C agora olhava pra frente. T não suspirou, não rolou os olhos, não fez nada. Antes de fazer qualquer coisa ela precisava entender o que era a sensação que se espalhava pelo seu corpo, que tinha calado a voz dentro dela. C tomou aquela falta de ação como incentivo pra continuar a falar.

‘E ele... ele acabou de passar no vestibular de outra cidade e... acho que não vou vê-lo mais.’ Ela agora apertava o botão mais próximo, solicitando a parada. Só quando iam se espremendo até sair do ônibus, T foi capaz de soltar um ‘Eu sinto muito..essas coisas acontecem, não fica assim’.
Elas se separaram na entrada do cursinho, C parando pra conversar com outros colegas, ela subindo as escadas até encontrar seus próprios companheiros já sentados, se despediram com um aceno e um sorriso, geralmente forçado por um dos lados, como sempre faziam. Ineditamente, T sorria com sinceridade naquela manhã.

T agora sabia o que estava sentindo, o que tinha feito a voz ficar quieta: esperança. Pelo menos ele não gostava dela e ia embora.

Amanhã ela voltaria a pegar o ônibus.

2 comentários:

I like it rough.
Evitem delicadezas.